hoje atirei o coração ao ar
para ver onde ele caía
Hoje preciso de um pois, preciso de um sim. Hoje preciso de mim.
Chegou o dia. Hoje, sim, já te posso agradecer por, novamente, ser. Não te o digo, mas sussurro! Quero-te tão bem…Mas não te quero. Aliás, hoje repito mais mil e uma vezes o que a minha alma pede e o que a minha cabeça ordena: “quero estar sozinha”. Quero-me e, estupidamente, escolho-me a mim. Prefiro assim. Juro que prefiro! No entretanto, peço-te, não saias de mim. Não me deixes percorrer sozinha o trilho, não me abandones, não me largues, não me libertes da tua música e sem a tua musicalidade. Não me prives da tua voz por perto, nem da tua esmagadora presença. Faz-me como sou, mas não me faças diferente. Faz-me ver-me, não me o mostres. Não me faças não te sentir na pele. Não me faças querer não te querer. Melhor, não me queiras. Não me faças ter-te. Porque não te tendo, não te temo. Também não temo a solidão, mas temo-te a perda. Não temo o frio, mas a falta do teu calor. Não temo uma cidade vazia, temo uma cidade grande demais só para mim. Não me deixes voltar para trás, nem me deixes ir em frente. Não me barres a passagem, mas também não me encorajes a ida. Alimenta-me o sonho, mata-me a sede de sentir vida por dentro, mas não me enchas de esperança. No entanto, fica por aqui! Por favor. E volta, volta atrás de mim, como tantas vezes. Volta a pegar-me pela cinta com a firme delicadeza daquela noite quente de outono. Enrola os teus braços em mim, para que, sem tempo de nada e de tudo, te possa fugir, deslizando. Volta a silenciar-me de medo, para que o meu coração não se cale. Volta a trazer-me e a levar-me pela mão. Volta sempre! Fazes-me bem, não o sabes, mas digo-to agora. Ainda assim, juro-te, continuo isenta de outra qualquer escolha. Sim, quero estar só, mas não quero ser só…
As fibras do velho coração foram restauradas até à exaustão. A fina-flôr do sonho regressou, inaudita. O tum-tum fortalecido é, agora, mais audível que nunca!
Guardo-te o sorriso único.
Guardo-te as lágrimas que sei, ninguém mais provará.

Devia ter-te dito. Devia tanto ter-to dito!
Arrepias-me. Arrepia-me o toque da tua mão quando toca na minha. Arrepia-me a tua presença, a forma como olhas nos meus olhos quando me falas. Arrepias-me sempre que me abraças, que me beijas a testa, os olhos, a pele...Sinto-me testemunha da tua alma, mesmo que não a creias existente. Conheço-te os recantos hoje mais do que ontem e isso também me arrepia. Provoca-me calafrios de medo o facto de saber que não te terei por perto mais uns milhares de segundos, de não te poder sentir a presença, de não te saber aqui comigo. Arrepia-me o teu sorriso, a simplicidade das tuas 'covinhas'. Mas acima de tudo, arrepia-me que me arrepies. Será que te soa estranho?
Continuo escondida por entre o par de lençóis amarfalhados em comunhão com o corpo. Dou por mim [re]caída sobre a cama, cansadamente desperta. É sempre em noites assim que reactivo o pensamento, que me decoro de razão e que abaulo o coração. Uma e outra vez.
Dói-me. Dói-me muito. E não sei onde. Dói-me quando olho para ti, quando te vejo já ao longe, de cigarro encarcerado entre os teus dedos tão monstruosamente pequeninos. Dói-me saber que só te volto a ver quando já for tarde, e quando a dor se cansar de tanto me cansar. Tenho as mãos suadas e o coração a transpirar de tanto dar voltas e revira-voltas. Dava tudo para saber estancar o palmo e meio de rasgo que me fazes na carne, não para o fazer, mas só para saber como actuar em caso de extrema urgência, que de urgência já eu vivo. Dói-me muito, mas não sei onde. Se agora mesmo entrasse nas portas cansadas de um qualquer hospital, ficaria dia e meio para explicar onde e o que me dói. E ainda assim, dia e meio depois, estaria exactamente no mesmo ponto da conversa. Estaria de frente para uma bata branca, curvado de dores, de soro a violar-me o braço e o sangue, e de coração semi-risonho, como uma criança que faz das suas e olha para o lado para que ninguém a veja. "Juro que me dói senhor doutor, juro-lhe." De que vale explicar uma dor a quem nunca a sentiu? A dor que me causas passa os limites de cinco países juntos.Apetece-me beber-te a conta-gotas.Dói-me. Dói-me muito. E quando me
disseres onde, vai doer-me muito mais.